sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Período sistemático

Este período tem como principal nome o filósofo Aristóteles de Estagira,
discípulo de Platão.
Passados quase quatro séculos de Filosofia, Aristóteles apresenta, nesse período,
uma verdadeira enciclopédia de todo o saber que foi produzido e acumulado
pelos gregos em todos os ramos do pensamento e da prática considerando essa
totalidade de saberes como sendo a Filosofia. Esta, portanto, não é um saber
específico sobre algum assunto, mas uma forma de conhecer todas as coisas,
possuindo procedimentos diferentes para cada campo de coisas que conhece.
Além de a Filosofia ser o conhecimento da totalidade dos conhecimentos e
práticas humanas, ela também estabelece uma diferença entre esses
conhecimentos, distribuindo-os numa escala que vai dos mais simples e
inferiores aos mais complexos e superiores. Essa classificação e distribuição dos
conhecimentos fixou, para o pensamento ocidental, os campos de investigação da
Filosofia como totalidade do saber humano.
Cada saber, no campo que lhe é próprio, possui seu objeto específico,
procedimentos específicos para sua aquisição e exposição, formas próprias de
demonstração e prova. Cada campo do conhecimento é uma ciência (ciência, em
grego, é episteme).
Aristóteles afirma que, antes de um conhecimento constituir seu objeto e seu
campo próprios, seus procedimentos próprios de aquisição e exposição, de
demonstração e de prova, deve, primeiro, conhecer as leis gerais que governam o
pensamento, independentemente do conteúdo que possa vir a ter.
O estudo das formas gerais do pensamento, sem preocupação com seu conteúdo,
chama-se lógica, e Aristóteles foi o criador da lógica como instrumento do
conhecimento em qualquer campo do saber.
A lógica não é uma ciência, mas o instrumento para a ciência e, por isso, na
classificação das ciências feita por Aristóteles, a lógica não aparece, embora ela
seja indispensável para a Filosofia e, mais tarde, tenha se tornado um dos ramos
específicos dela.
Os campos do conhecimento filosófico
Vejamos, pois, a classificação aristotélica:
? Ciências produtivas: ciências que estudam as práticas produtivas ou as
técnicas, isto é, as ações humanas cuja finalidade está para além da própria ação,
pois a finalidade é a produção de um objeto, de uma obra. São elas: arquitetura
(cujo fim é a edificação de alguma coisa), economia (cujo fim é a produção
agrícola, o artesanato e o comércio, isto é, produtos para a sobrevivência e para o
acúmulo de riquezas), medicina (cujo fim é produzir a saúde ou a cura), pintura,
escultura, poesia, teatro, oratória, arte da guerra, da caça, da navegação, etc. Em suma, todas as atividades humanas técnicas e artísticas que resultam num produto
ou numa obra.
? Ciências práticas: ciências que estudam as práticas humanas enquanto ações
que têm nelas mesmas seu próprio fim, isto é, a finalidade da ação se realiza nela
mesma, é o próprio ato realizado. São elas: ética, em que a ação é realizada pela
vontade guiada pela razão para alcançar o bem do indivíduo, sendo este bem as
virtudes morais (coragem, generosidade, fidelidade, lealdade, clemência,
prudência, amizade, justiça, modéstia, honradez, temperança, etc.); e política, em
que a ação é realizada pela vontade guiada pela razão para ter como fim o bem da
comunidade ou o bem comum.
Para Aristóteles, como para todo grego da época clássica, a política é superior à
ética, pois a verdadeira liberdade, sem a qual não pode haver vida virtuosa, só é
conseguida na polis. Por isso, a finalidade da política é a vida justa, a vida boa e
bela, a vida livre.
? Ciências teoréticas, contemplativas ou teóricas: são aquelas que estudam
coisas que existem independentemente dos homens e de suas ações e que, não
tendo sido feitas pelos homens, só podem ser contempladas por eles. Theoria, em
grego, significa contemplação da verdade. O que são as coisas que existem por si
mesmas e em si mesmas, independentes de nossa ação fabricadora (técnica) e de
nossa ação moral e política? São as coisas da Natureza e as coisas divinas.
Aristóteles, aqui, classifica também por graus de superioridade as ciências
teóricas, indo da mais inferior à superior:
1. ciência das coisas naturais submetidas à mudança ou ao devir: física, biologia,
meteorologia, psicologia (pois a alma, que em grego se diz psychê, é um ser
natural, existindo de formas variadas em todos os seres vivos, plantas, animais e
homens);
2. ciência das coisas naturais que não estão submetidas à mudança ou ao devir: as
matemáticas e a astronomia (os gregos julgavam que os astros eram eternos e
imutáveis);
3. ciência da realidade pura, que não é nem natural mutável, nem natural
imutável, nem resultado da ação humana, nem resultado da fabricação humana.
Trata-se daquilo que deve haver em toda e qualquer realidade, seja ela natural,
matemática, ética, política ou técnica, para ser realidade. É o que Aristóteles
chama de ser ou substância de tudo o que existe. A ciência teórica que estuda o
puro ser chama-se metafísica;
4. ciência teórica das coisas divinas que são a causa e a finalidade de tudo o que
existe na Natureza e no homem. Vimos que as coisas divinas são chamadas de
theion e, por isso, esta última ciência chama-se teologia.
A Filosofia, para Aristóteles, encontra seu ponto mais alto na metafísica e na
teologia, de onde derivam todos os outros conhecimentos.
A partir da classificação aristotélica, definiu-se, no correr dos séculos, o grande
campo da investigação filosófica, campo que só seria desfeito no século XIX da
nossa era, quando as ciências particulares se foram separando do tronco geral da
Filosofia. Assim, podemos dizer que os campos da investigação filosófica são
três:
1º. O do conhecimento da realidade última de todos os seres, ou da essência de
toda a realidade. Como, em grego, ser se diz on e os seres se diz ta onta, este
campo é chamado de ontologia (que, na linguagem de Aristóteles, se formava
com a metafísica e a teologia).
2º. O do conhecimento das ações humanas ou dos valores e das finalidades da
ação humana: das ações que têm em si mesmas sua finalidade, a ética e a política,
ou a vida moral (valores morais) e a vida política (valores políticos); e das ações
que têm sua finalidade num produto ou numa obra: as técnicas e as artes e seus
valores (utilidade, beleza, etc.).
3º. O do conhecimento da capacidade humana de conhecer, isto é, o
conhecimento do próprio pensamento em exercício. Aqui, distinguem-se: a
lógica, que oferece as leis gerais do pensamento; a teoria do conhecimento, que
oferece os procedimentos pelos quais conhecemos; as ciências propriamente ditas
e o conhecimento do conhecimento científico, isto é, a epistemologia.
Ser ou realidade, prática ou ação segundo valores, conhecimento do pensamento
em suas leis gerais e em suas leis específicas em cada ciência: eis os campos da
atividade ou investigação filosófica.

Fonte: Chaui, Marilena. Convite à filosofia, Capítulo 3.

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Os períodos da Filosofia grega

A Filosofia terá, no correr dos séculos, um conjunto de preocupações, indagações
e interesses que lhe vieram de seu nascimento na Grécia.
Assim, antes de vermos que campos são esses, examinemos brevemente os
conteúdos que a Filosofia possuía na Grécia. Para isso, de vemos, primeiro,
conhecer os períodos principais da Filosofia grega, pois tais períodos definiram
os campos da investigação filosófica na Antigüidade.
A história da Grécia costuma ser dividida pelos historiadores em quatro grandes
fases ou épocas:
1. a da Grécia homérica, correspondente aos 400 anos narrados pelo poeta
Homero, em seus dois grandes poemas, Ilíada e Odisséia;
2. a da Grécia arcaica ou dos sete sábios, do século VII ao século V antes de
Cristo, quando os gregos criam cidades como Atenas, Esparta, Tebas, Megara,
Samos, etc., e predomina a economia urbana, baseada no artesanato e no
comércio;
3. a da Grécia clássica, nos séculos V e IV antes de Cristo, quando a democracia
se desenvolve, a vida intelectual e artística entra no apogeu e Atenas domina a
Grécia com seu império comercial e militar;
4. e, finalmente, a época helenística, a partir do final do século IV antes de
Cristo, quando a Grécia passa para o poderio do império de Alexandre da
Macedônia, e, depois, para as mãos do Império Romano, terminando a história de
sua existência independente.
Os períodos da Filosofia não correspondem exatamente a essas épocas, já que ela
não existe na Grécia homérica e só aparece nos meados da Grécia arcaica.
Entretanto, o apogeu da Filosofia acontece durante o apogeu da cultura e da
sociedade gregas; portanto, durante a Grécia clássica.
Os quatro grandes períodos da Filosofia grega, nos quais seu conteúdo muda e se
enriquece, são:
1. Período pré-socrático ou cosmológico, do final do século VII ao final do
século V a.C., quando a Filosofia se ocupa fundamentalmente com a origem do
mundo e as causas das transformações na Natureza.
2. Período socrático ou antropológico, do final do século V e todo o século IV
a.C., quando a Filosofia investiga as questões humanas, isto é, a ética, a política e
as técnicas (em grego, ântropos quer dizer homem; por isso o período recebeu o
nome de antropológico).
3. Período sistemático, do final do século IV ao final do século III a.C., quando a
Filosofia busca reunir e sistematizar tudo quanto foi pensado sobre a cosmologia
e a antropologia, interessando-se sobretudo em mostrar que tudo pode ser objeto
do conhecimento filosófico, desde que as leis do pensamento e de suas
demonstrações estejam firmemente estabelecidas para oferecer os critérios da
verdade e da ciência.
4. Período helenístico ou greco-romano, do final do século III a.C. até o século
VI depois de Cristo. Nesse longo período, que já alcança Roma e o pensamento
dos primeiros Padres da Igreja, a Filosofia se ocupa sobretudo com as questões
da ética, do conhecimento humano e das relações entre o homem e a Natureza e
de ambos com Deus.

Fonte: Chaui, Marilena. Convite à filosofia, Capítulo 3. 

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Principais características da Filosofia nascente

O pensamento filosófico em seu nascimento tinha como traços principais:
? tendência à racionalidade, isto é, a razão e somente a razão, com seus
princípios e regras, é o critério da explicação de alguma coisa;
? tendência a oferecer respostas conclusivas para os problemas, isto é, colocado
um problema, sua solução é submetida à análise, à crítica, à discussão e à
demonstração, nunca sendo aceita como uma verdade, se não for provado
racionalmente que é verdadeira;
? exigência de que o pensamento apresente suas regras de funcionamento, isto é,
o filósofo é aquele que justifica suas ideias provando que segue regras universais
do pensamento. Para os gregos, é uma lei universal do pensamento que a
contradição indica erro ou falsidade. Uma contradição acontece quando afirmo e
nego a mesma coisa sobre uma mesma coisa (por exemplo: “Pedro é um menino
e não um menino”, “A noite é escura e clara”, “O infinito não tem limites e é
limitado”). Assim, quando uma contradição aparecer numa exposição filosófica,
ela deve ser considerada falsa;
? recusa de explicações preestabelecidas e, portanto, exigência de que, para cada
problema, seja investigada e encontrada a solução própria exigida por ele;
? tendência à generalização, isto é, mostrar que uma explicação tem validade
para muitas coisas diferentes porque, sob a variação percebida pelos órgãos de
nossos sentidos, o pensamento descobre semelhanças e identidades.
Por exemplo, para meus olhos, meu tato e meu olfato, o gelo é diferente da
neblina, que é diferente do vapor de uma chaleira, que é diferente da chuva, que é
diferente da correnteza de um rio. No entanto, o pensamento mostra que se trata
sempre de um mesmo elemento (a água), passando por diferentes estados e
formas (líquido, sólido, gasoso), por causas naturais diferentes (condensação,
liquefação, evaporação).
Reunindo semelhanças, o pensamento conclui que se trata de uma mesma coisa
que aparece para nossos sentidos de maneiras diferentes, e como se fossem
coisas diferentes. O pensamento generaliza porque abstrai (isto é, separa e reúne
os traços semelhantes), ou seja, realiza uma síntese.
E o contrário também ocorre. Muitas vezes nossos órgãos dos sentidos nos fazem
perceber coisas diferentes como se fossem a mesma coisa, e o pensamento
demonstrará que se trata de uma coisa diferente sob a aparência da semelhança.
No ano de 1992, no Brasil, os jovens estudantes pintaram a cara com as cores da
bandeira nacional e saíram às ruas para exigir o impedimento do presidente da
República.
Logo depois, os candidatos a prefeituras municipais contrataram jovens para
aparecer na televisão com a cara pintada, defendendo tais candidaturas. A seguir,
as Forças Armadas brasileiras, para persuadir jovens a servi-las, contrataram
jovens caras-pintadas para aparecer como soldados, marinheiros e aviadores. Ao
mesmo tempo, várias empresas, pretendendo vender seus produtos aos jovens,
contrataram artistas jovens para, de cara pintada, fazer a propaganda de seus
produtos.
Aparentemente, teríamos sempre a mesma coisa - os jovens rebeldes e
conscientes, de cara pintada, símbolo da esperança do País. No entanto, o
pensamento pode mostrar que, sob a aparência da semelhança percebida, estão
diferenças, pois os primeiros caras-pintadas fizeram um movimento político
espontâneo, os segundos fizeram propaganda política para um candidato (e
receberam para isso), os terceiros tentaram ajudar as Forças Armadas a aparecer
como divertidas e juvenis, e os últimos, mediante remuneração, estavam
transferindo para produtos industriais (roupas, calçados, vídeos, margarinas,
discos, iogurtes) um símbolo político inteiramente despolitizado e sem nenhuma
relação com sua origem.
Separando as diferenças, o pensamento realiza, nesse caso, uma análise.

Fonte: Chaui, Marilena. Convite à filosofia, Capítulo 2.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Condições históricas para o surgimento da Filosofia

Resolvido esse problema, temos ainda um último a solucionar: O que tornou
possível o surgimento da Filosofia na Grécia no final do século VII e no início do
século VI antes de Cristo? Quais as condições materiais, isto é, econômicas,
sociais, políticas e históricas que permitiram o surgimento da Filosofia?
Podemos apontar como principais condições históricas para o surgimento da
Filosofia na Grécia:
as viagens marítimas, que permitiram aos gregos descobrir que os locais que
os mitos diziam habitados por deuses, titãs e heróis eram, na verdade, habitados
por outros seres humanos; e que as regiões dos mares que os mitos diziam
habitados por monstros e seres fabulosos não possuíam nem monstros nem seres
fabulosos. As viagens produziram o desencantamento ou a desmistificação do
mundo, que passou, assim, a exigir uma explicação sobre sua origem, explicação
que o mito já não podia oferecer;
a invenção do calendário, que é uma forma de calcular o tempo segundo as
estações do ano, as horas do dia, os fatos importantes que se repetem, revelando,
com isso, uma capacidade de abstração nova, ou uma percepção do tempo como
algo natural e não como um poder divino incompreensível;
a invenção da moeda, que permitiu uma forma de troca que não se realiza
através das coisas concretas ou dos objetos concretos trocados por semelhança,
mas uma troca abstrata, uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto, uma nova capacidade de abstração e de
generalização;
o surgimento da vida urbana, com predomínio do comércio e do artesanato,
dando desenvolvimento a técnicas de fabricação e de troca, e diminuindo o
prestígio das famílias da aristocracia proprietária de terras, por quem e para quem
os mitos foram criados; além disso, o surgimento de uma classe de comerciantes
ricos, que precisava encontrar pontos de poder e de prestígio para suplantar o
velho poderio da aristocracia de terras e de sangue (as linhagens constituídas
pelas famílias), fez com que se procurasse o prestígio pelo patrocínio e estímulo
às artes, às técnicas e aos conhecimentos, favorecendo um ambiente onde a
Filosofia poderia surgir;
a invenção da escrita alfabética, que, como a do calendário e a da moeda,
revela o crescimento da capacidade de abstração e de generalização, uma vez que
a escrita alfabética ou fonética, diferentemente de outras escritas - como, por
exemplo, os hieróglifos dos egípcios ou os ideogramas dos chineses -, supõe que
não se represente uma imagem da coisa que está sendo dita, mas a idéia dela, o
que dela se pensa e se transcreve;
a invenção da política, que introduz três aspectos novos e decisivos para o
nascimento da Filosofia:
1. A idéia da lei como expressão da vontade de uma coletividade humana que
decide por si mesma o que é melhor para si e como ela definirá suas relações
internas. O aspecto legislado e regulado da cidade - da polis - servirá de modelo
para a Filosofia propor o aspecto legislado, regulado e ordenado do mundo como
um mundo racional.
2. O surgimento de um espaço público, que faz aparecer um novo tipo de palavra
ou de discurso, diferente daquele que era proferido pelo mito. Neste, um poeta-vidente,
que recebia das deusas ligadas à memória (a deusa Mnemosyne, mãe das
Musas, que guiavam o poeta) uma iluminação misteriosa ou uma revelação
sobrenatural, dizia aos homens quais eram as decisões dos deuses que eles
deveriam obedecer.
Agora, com a polis, isto é, a cidade política, surge a palavra como direito de cada
cidadão de emitir em público sua opinião, discuti-la com os outros, persuadi-los a
tomar uma decisão proposta por ele, de tal modo que surge o discurso político
como a palavra humana compartilhada, como diálogo, discussão e deliberação
humana, isto é, como decisão racional e exposição dos motivos ou das razões
para fazer ou não fazer alguma coisa.
A política, valorizando o humano, o pensamento, a discussão, a persuasão e a
decisão racional , valorizou o pensamento racional e criou condições para que
surgisse o discurso ou a palavra filosófica.
3. A política estimula um pensamento e um discurso que não procuram ser
formulados por seitas secretas dos iniciados em mistérios sagrados, mas que
procuram, ao contrário, ser públicos, ensinados, transmitidos, comunicados e
discutidos. A ideia de um pensamento que todos podem compreender e discutir,
que todos podem comunicar e transmitir, é fundamental para a Filosofia.

Fonte: Chaui, Marilena. Convite à filosofia, Capítulo 2.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Mito e Filosofia

Resolvido esse problema, agora temos um outro que também tem ocupado muito
os estudiosos. O novo problema pode ser assim formulado: a Filosofia nasceu realizando uma transformação gradual sobre os mitos gregos ou nasceu por uma
ruptura radical com os mitos?
O que é um mito?
Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da
Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do
bem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das
raças, das guerras, do poder, etc.).
A palavra mito vem do grego, mythos, e deriva de dois verbos: do verbo mytheyo
(contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo (conversar,
contar, anunciar, nomear, designar). Para os gregos, mito é um discurso
pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem como verdadeira a
narrativa, porque confiam naquele que narra; é uma narrativa feita em público,
baseada, portanto, na autoridade e confiabilidade da pessoa do narrador. E essa
autoridade vem do fato de que ele ou testemunhou diretamente o que está
narrando ou recebeu a narrativa de quem testemunhou os acontecimentos
narrados.
Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Quem é ele? Por que tem autoridade?
Acredita-se que o poeta é um escolhido dos deuses, que lhe mostram os
acontecimentos passados e permitem que ele veja a origem de todos os seres e de
todas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra - o mito - é
sagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é, pois, incontestável e
inquestionável.
Como o mito narra a origem do mundo e de tudo o que nele existe?
De três maneiras principais:
1. Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos seres, isto é, tudo o que existe
decorre de relações sexuais entre forças divinas pessoais. Essas relações geram os
demais deuses: os titãs (seres semi-humanos e semidivinos), os heróis (filhos de
um deus com uma humana ou de uma deusa com um humano), os humanos, os
metais, as plantas, os animais, as qualidades, como quente-frio, seco-úmido,
claro-escuro, bom-mau, justo-injusto, belo-feio, certo-errado, etc.
A narração da origem é, assim, uma genealogia, isto é, narrativa da geração dos
seres, das coisas, das qualidades, por outros seres, que são seus pais ou
antepassados.
Tomemos um exemplo da narrativa mítica.
Observando que as pessoas apaixonadas estão sempre cheias de ansiedade e de
plenitude, inventam mil expedientes para estar com a pessoa amada ou para
seduzi-la e também serem amadas, o mito narra a origem do amor, isto é, o
nascimento do deus Eros (que conhecemos mais com o nome de Cupido): Houve uma grande festa entre os deuses. To dos foram convidados, menos a
deusa Penúria, sempre miserável e faminta. Quando a festa acabou, Penúria veio,
comeu os restos e dormiu com o deus Poros (o astuto engenhoso). Dessa relação
sexual, nasceu Eros (ou Cupido), que, como sua mãe, está sempre faminto,
sedento e miserável, mas, como seu pai, tem mil astúcias para se satisfazer e se
fazer amado. Por isso, quando Eros fere alguém com sua flecha, esse alguém se
apaixona e logo se sente faminto e sedento de amor, inventa astúcias para ser
amado e satisfeito, ficando ora maltrapilho e semimorto, ora rico e cheio de vida.
2. Encontrando uma rivalidade ou uma aliança entre os deuses que faz surgir
alguma coisa no mundo. Nesse caso, o mito narra ou uma guerra entre as forças
divinas, ou uma aliança entre elas para provocar alguma coisa no mundo dos
homens.
O poeta Homero, na Ilíada, que narra a guerra de Tróia, explica por que, em
certas batalhas, os troianos eram vitoriosos e, em outras, a vitória cabia aos
gregos. Os deuses estavam divididos, alguns a favor de um lado e outros a favor
do outro. A cada vez, o rei dos deuses, Zeus, ficava com um dos partidos, aliavase
com um grupo e fazia um dos lados - ou os troianos ou os gregos - vencer uma
batalha.
A causa da guerra, aliás, foi uma rivalidade entre as deusas. Elas apareceram em
sonho para o príncipe troiano Paris, oferecendo a ele seus dons e ele escolheu a
deusa do amor, Afrodite. As outras deusas, enciumadas, o fizeram raptar a grega
Helena, mulher do general grego Menelau, e isso deu início à guerra entre os
humanos.
3. Encontrando as recompensas ou castigos que os deuses dão a quem os
desobedece ou a quem os obedece.
Como o mito narra, por exemplo, o uso do fogo pelos homens? Para os homens,
o fogo é essencial, pois com ele se diferenciam dos animais, porque tanto passam
a cozinhar os alimentos, a iluminar caminhos na noite, a se aquecer no inverno
quanto podem fabricar instrumentos de metal para o trabalho e para a guerra.
Um titã, Prometeu, mais amigo dos homens do que dos deuses, roubou uma
centelha de fogo e a trouxe de presente para os humanos. Prometeu foi castigado
(amarrado num rochedo para que as aves de rapina, eternamente, devorassem seu
fígado) e os homens também. Qual foi o castigo dos homens?
Os deuses fizeram uma mulher encantadora, Pandora, a quem foi entregue uma
caixa que conteria coisas maravilhosas, mas nunca deveria ser aberta. Pandora foi
enviada aos humanos e, cheia de curiosidade e querendo dar a eles as maravilhas,
abriu a caixa. Dela saíram todas as desgraças, doenças, pestes, guerras e,
sobretudo, a morte. Explica-se, assim, a origem dos males no mundo.
Vemos, portanto, que o mito narra a origem das coisas por meio de lutas, alianças
e relações sexuais entre forças sobrenaturais que governam o mundo e o destino dos homens. Como os mitos sobre a origem do mundo são genealogias, diz-se
que são cosmogonias e teogonias.
A palavra gonia vem de duas palavras gregas: do verbo gennao (engendrar,
gerar, fazer nascer e crescer) e do substantivo genos (nascimento, gênese,
descendência, gênero, espécie). Gonia, portanto, quer dizer: geração, nascimento
a partir da concepção sexual e do parto. Cosmos, como já vimos, quer dizer
mundo ordenado e organizado. Assim, a cosmogonia é a narrativa sobre o
nascimento e a organização do mundo, a partir de forças geradoras (pai e mãe)
divinas.
Teogonia é uma palavra composta de gonia e theós, que, em grego, significa: as
coisas divinas, os seres divinos, os deuses. A teogonia é, portanto, a narrativa da
origem dos deuses, a partir de seus pais e antepassados.
Qual é a pergunta dos estudiosos? É a seguinte: A Filosofia, ao nascer, é, como já
dissemos, uma cosmologia, uma explicação racional sobre a origem do mundo e
sobre as causas das transformações e repetições das coisas; para isso, ela nasce de
uma transformação gradual dos mitos ou de uma ruptura radical com os mitos?
Continua ou rompe com a cosmogonia e a teogonia?
Duas foram as respostas dadas.
A primeira delas foi dada nos fins do século XIX e começo do século XX,
quando reinava um grande otimismo sobre os poderes científicos e capacidades
técnicas do homem. Dizia-se, então, que a Filosofia nasceu por uma ruptura
radical com os mitos, sendo a primeira explicação científica da realidade
produzida pelo Ocidente.
A segunda resposta foi dada a partir de meados do século XX, quando os estudos
dos antropólogos e dos historiadores mostraram a importância dos mitos na
organização social e cultural das sociedades e como os mitos estão
profundamente entranhados nos modos de pensar e de sentir de uma sociedade.
Por isso, dizia-se que os gregos, como qualquer outro povo, acreditavam em seus
mitos e que a Filosofia nasceu, vagarosa e gradualmente, do interior dos próprios
mitos, como uma racionalização deles.
Atualmente consideram-se as duas respostas exageradas e afirma-se que a
Filosofia, percebendo as contradições e limitações dos mitos, foi reformulando e
racionalizando as narrativas míticas, transformando-as numa outra coisa, numa
explicação inteiramente nova e diferente.
Quais são as diferenças entre Filosofia e mito? Podemos apontar três como as
mais importantes:
1. O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no passado
imemorial, longínquo e fabuloso, voltando-se para o que era antes que tudo
existisse tal como existe no presente. A Filosofia, ao contrário, se preocupa em explicar como e por que, no passado, no presente e no futuro (isto é, na totalidade
do tempo), as coisas são como são;
2. O mito narrava a origem através de genealogias e rivalidades ou alianças entre
forças divinas sobrenaturais e personalizadas, enquanto a Filosofia, ao contrário,
explica a produção natural das coisas por elementos e causas naturais e
impessoais.
O mito falava em Urano, Ponto e Gaia; a Filosofia fala em céu, mar e terra. O
mito narra a origem dos seres celestes (os astros), terrestres (plantas, animais,
homens) e marinhos pelos casamentos de Gaia com Urano e Ponto. A Filosofia
explica o surgimento desses seres por composição, combinação e separação dos
quatro elementos - úmido, seco, quente e frio, ou água, terra, fogo e ar.
3. O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o
incompreensível, não só porque esses eram traços próprios da narrativa mítica,
como também porque a confiança e a crença no mito vinham da autoridade
religiosa do narrador. A Filosofia, ao contrário, não admite contradições,
fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja coerente,
lógica e racional; além disso, a autoridade da explicação não vem da pessoa do
filósofo, mas da razão, que é a mesma em todos os seres humanos.

Fonte: Chaui, Marilena. Convite à filosofia, Capítulo 2.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O nascimento da Filosofia - Parte 2

Os historiadores da Filosofia dizem que ela possui data e local de nascimento:
final do século VII e início do século VI antes de Cristo, nas colônias gregas da
Ásia Menor (particularmente as que formavam uma região denominada Jônia),
na cidade de Mileto. E o primeiro filósofo foi Tales de Mileto.
Além de possuir data e local de nascimento e de possuir seu primeiro autor, a
Filosofia também possui um conteúdo preciso ao nascer: é uma cosmologia. A
palavra cosmologia é composta de duas outras: cosmos, que significa mundo
ordenado e organizado, e logia, que vem da palavra logos, que significa
pensamento racional, discurso racional, conhecimento. Assim, a Filosofia nasce
como conhecimento racional da ordem do mundo ou da Natureza, donde,
cosmologia.
Apesar da segurança desses dados, existe um problema que, durante séculos, vem
ocupando os historiadores da Filosofia: o de saber se a Filosofia - que é um fato
especificamente grego - nasceu por si mesma ou dependeu de contribuições da
sabedoria oriental (egípcios, assírios, persas, caldeus, babilônios) e da sabedoria
de civilizações que antecederam à grega, na região que, antes de ser a Grécia ou a
Hélade, abrigara as civilizações de Creta, Minos, Tirento e Micenas.
Durante muito tempo, considerou-se que a Filosofia nascera por transformações
que os gregos operaram na sabedoria oriental (egípcia, persa, caldéia e babilônica). Assim, filósofos como Platão e Aristóteles afirmavam a origem
oriental da Filosofia. Os gregos, diziam eles, povo comerciante e navegante,
descobriram, através das viagens, a agrimensura dos egípcios (usada para medir
as terras, após as cheias do Nilo), a astrologia dos caldeus e dos babilônios
(usada para prever grandes guerras, subida e queda de reis, catástrofes como
peste, fome, furacões), as genealogias dos persas (usadas para dar continuidade
às linhagens e dinastias dos governantes), os mistérios religiosos orientais
referentes aos rituais de purificação da alma (para livrá-la da reencarnação
contínua e garantir-lhe o descanso eterno), etc. A Filosofia teria nascido pelas
transformações que os gregos impuseram a esses conhecimentos.
Dessa forma, da agrimensura, os gregos fizeram nascer duas ciências: a
aritmética e a geometria; da astrologia, fizeram surgir também duas ciências: a
astronomia e a meteorologia; das genealogias, fizeram surgir mais uma outra
ciência: a história; dos mistérios religiosos de purificação da alma, fizeram surgir
as teorias filosóficas sobre a natureza e o destino da alma humana.
Todos esses conhecimentos teriam propiciado o aparecimento da Filosofia, isto é,
da cosmologia, de sorte que a Filosofia só teria podido nascer graças as saber
oriental.
Essa idéia de uma filiação oriental da Filosofia foi muito defendida oito séculos
depois de seu nascimento (durante os séculos II e III depois de Cristo), no
período do Império Romano. Quem a defendia? Os pensadores judaicos, como
Filo de Alexandria, e os Padres da Igreja, como Eusébio de Cesaréia e Clemente
de Alexandria.
Por que defendiam a origem oriental da Filosofia grega? Pelo seguinte motivo: a
Filosofia grega tornara-se, em toda a Antigüidade clássica, e para os poderosos
da época, os romanos, a forma superior ou mais elevada do pensamento e da
moral.
Os judeus, para valorizar seu pensamento, desejavam que a Filosofia tivesse uma
origem oriental, dizendo que o pensamento de filósofos importantes, como
Platão, tinha surgido no Egito, onde se originara o pensamento de Moisés, de
modo que havia uma ligação entre a Filosofia grega e a Bíblia.
Os Padres da Igreja, por sua vez, queriam mostrar que os ensinamentos de Jesus
eram elevados e perfeitos, não eram superstição, nem primitivos e incultos, e por
isso mostravam que os filósofos gregos estavam filiados a correntes de
pensamento místico e oriental e, dessa maneira, estariam próximos do
cristianismo, que é uma religião oriental.
No entanto, nem todos aceitaram a tese chamada “orientalista”, e muitos,
sobretudo no século XIX da nossa era, passaram a falar na Filosofia como sendo
o “milagre grego”.
Com a palavra “milagre” queriam dizer várias coisas: 

  • que a Filosofia surgiu inesperada e espantosamente na Grécia, sem que nada
anterior a preparasse;
  •  que a Filosofia grega foi um acontecimento espontâneo, único e sem par, como
é próprio de um milagre;
  • que os gregos foram um povo excepcional, sem nenhum outro semelhante a
eles, nem antes e nem depois deles, e por isso somente eles poderiam ter sido
capazes de criar a Filosofia, como foram os únicos a criar as ciências e a dar às
artes uma elevação que nenhum outro povo conseguiu, nem antes e nem depois
deles.


Nem oriental, nem milagre

Desde o final do século XIX da nossa era e durante o século XX, estudos
históricos, arqueológicos, lingüísticos, literários e artísticos corrigiram os
exageros das duas teses, isto é, tanto a redução da Filosofia à sua origem oriental,
quanto o “milagre grego ”.
Retirados os exageros do orientalismo, percebe-se que, de fato, a Filosofia tem
dívidas com a sabedoria dos orientais, não só porque as viagens colocaram os
gregos em contato com os conhecimentos produzidos por outros povos
(sobretudo os egípcios, persas, babilônios, assírios e caldeus), mas também
porque os dois maiores formadores da cultura grega antiga, os poetas Homero e
Hesíodo, encontraram nos mitos e nas religiões dos povos orientais, bem como
nas culturas que precederam a grega, os elementos para elaborar a mitologia
grega, que, depois, seria transformada racionalmente pelos filósofos.
Assim, os estudos recentes mostraram que mitos, cultos religiosos, instrumentos
musicais, dança, música, poesia, utensílios domésticos e de trabalho, formas de
habitação, formas de parentesco e formas de organização tribal dos gregos foram
resultado de contatos profundos com as culturas mais avançadas do Oriente e
com a herança deixada pelas culturas que antecederam a grega, nas regiões onde
ela se implantou.
Esses mesmos estudos apontaram, porém, que, se nos afastarmos dos exageros da
idéia de um “milagre grego”, podemos perceber o que havia de verdadeiro nessa
tese. De fato, os gregos imprimiram mudanças de qualidade tão profundas no que
receberam do Oriente e das culturas precedentes, que até pareceria terem criado
sua própria cultura a partir de si mesmos. Dessas mudanças, podemos mencionar
quatro que nos darão uma idéia da originalidade grega:
1. Com relação aos mitos: quando comparamos os mitos orientais, cretenses,micênicos, minóicos e os que aparecem nos poetas Homero e Hesíodo, vemos
que eles retiraram os aspectos apavorantes e monstruosos dos deuses e do início
do mundo; humanizaram os deuses, divinizaram os homens; deram racionalidade
a narrativas sobre as origens das coisas, dos homens, das instituições humanas
(como o trabalho, as leis, a moral);
2. Com relação aos conhecimentos: os gregos transformaram em ciência (isto é,
num conhecimento racional, abstrato e universal) aquilo que eram elementos de
uma sabedoria prática para o uso direto na vida.
Assim, transformaram em matemática (aritmética, geometria, harmonia) o que
eram expedientes práticos para medir, contar e calcular; transformaram em
astronomia (conhecimento racional da natureza e do movimento dos astros)
aquilo que eram práticas de adivinhação e previsão do futuro; transformaram em
medicina (conhecimento racional sobre o corpo humano, a saúde e a doença)
aquilo que eram práticas de grupos religiosos secretos para a cura misteriosa das
doenças. E assim por diante;
3. Com relação à organização social e política: os gregos não inventaram apenas
a ciência ou a Filosofia, mas inventaram também a política. Todas as sociedades
anteriores a eles conheciam e praticavam a autoridade e o governo. Mas, por que
não inventaram a política propriamente dita?
Nas sociedades orientais e não-gregas, o poder e o governo eram exercidos como
autoridade absoluta da vontade pessoal e arbitrária de um só homem ou de um
pequeno grupo de homens que decidiam sobre tudo, sem consultar a ninguém e
sem justificar suas decisões para ninguém.
Os gregos inventaram a política (palavra que vem de polis, que, em grego,
significa cidade organizada por leis e instituições) porque instituíram práticas
pelas quais as decisões eram tomadas a partir de discussões e debates públicos e
eram adotadas ou revogadas por voto em assembléias públicas; porque
estabeleceram instituições públicas (tribunais, assembléias, separação entre
autoridade do chefe da família e autoridade pública, entre autoridade políticomilitar
e autoridade religiosa) e sobretudo porque criaram a idéia da lei e da
justiça como expressões da vontade coletiva pública e não como imposição da
vontade de um só ou de um grupo, em nome de divindades.
Os gregos criaram a política porque separaram o poder político e duas outras
formas tradicionais de autoridade: a do chefe de família e a do sacerdote ou
mago;
4. Com relação ao pensamento: diante da herança recebida, os gregos inventaram
a idéia ocidental da razão como um pensamento sistemático que segue regras,
normas e leis de valor universal (isto é, válidas em todos os tempos e lugares.
Assim, por exemplo, em qualquer tempo e lugar 2 + 2 serão sempre 4; o
triângulo sempre terá três lados; o Sol sempre será maior do que a Terra, mesmo
que ele pareça menor do que ela, etc.).

Fonte: Chaui, Marilena. Convite à filosofia, Capítulo 2.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O que perguntavam os primeiros filósofos



Por que os seres nascem e morrem? Por que os semelhantes dão origem aos
semelhantes, de uma árvore nasce outra árvore, de um cão nasce outro cão, de
uma mulher nasce uma criança? Por que os diferentes também parecem fazer
surgir os diferentes: o dia parece fazer nascer a noite, o inverno parece fazer
surgir a primavera, um objeto escuro clareia com o passar do tempo, um objeto
claro escurece com o passar do tempo?
Por que tudo muda? A criança se torna adulta, amadurece, envelhece e
desaparece. A paisagem, cheia de flores na primavera, vai perdendo o verde e as
cores no outono, até ressecar-se e retorcer-se no inverno. Por que um dia
luminoso e ensolarado, de céu azul e brisa suave, repentinamente, se torna
sombrio, coberto de nuvens, varrido por ventos furiosos, tomado pela
tempestade, pelos raios e trovões?
Por que a doença invade os corpos, rouba-lhes a cor, a força? Por que o alimento
que antes me agradava, agora, que estou doente, me causa repugnância? Por que
o som da música que antes me embalava, agora, que estou doente, parece um
ruído insuportável?
Por que o que parecia uno se multiplica em tantos outros? De uma só árvore,
quantas flores e quantos frutos nascem! De uma só gata, quantos gatinhos
nascem!
Por que as coisas se tornam opostas ao que eram? A água do copo, tão
transparente e de boa temperatura, torna-se uma barra dura e gelada, deixa de ser
líquida e transparente para tornar-se sólida e acinzentada. O dia, que começa frio
e gelado, pouco a pouco, se torna quente e cheio de calor.
Por que nada permanece idêntico a si mesmo? De onde vêm os seres? Para onde
vão, quando desaparecem? Por que se transformam? Por que se diferenciam uns
dos outros? Mas também, por que tudo parece repetir-se? Depois do dia, a noite;
depois da noite, o dia. Depois do inverno, a primavera, depois da primavera, o
verão, depois deste, o outono e depois deste, novamente o inverno. De dia, o sol;
à noite, a lua e as estrelas. Na primavera, o mar é tranquilo e propício à
navegação; no inverno, tempestuoso e inimigo dos homens. O calor leva as águas
para o céu e as traz de volta pelas chuvas. Ninguém nasce adulto ou velho, mas
sempre criança, que se torna adulto e velho.
Foram perguntas como essas que os primeiros filósofos fizeram e para elas
buscaram respostas.
Sem dúvida, a religião, as tradições e os mitos explicavam todas essas coisas,
mas suas explicações já não satisfaziam aos que interrogavam sobre as causas da
mudança, da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento de
todos os seres. Haviam perdido força explicativa, não convenciam nem
satisfaziam a quem desejava conhecer a verdade sobre o mundo.

Para refletir!!Boa leitura pra vocês. Se tiverem alguma dúvida deixem nos comentários ou entrem em contato. Beijos :)
Contato: jeniferbelles@gmail.com 

Fonte: Chaui, Marilena. Convite à filosofia, Capítulo 2.